Andava pela rua com seus passos largos e olhar distante, atentando-se algumas vezes ao seu relógio de pulso. Quanto tempo de sua vida já perdera? Não prestava atenção no transito, no clima, nem nas pessoas. Pouco lhe importava, também nunca recebera a devida atenção. Era culpado. Encostou-se em um muro perdendo-se na sombra de uma antiga loja de utilidades bastante popular em seu bairro. Olhando para o céu e respirando o ar frio daquela noite de outubro em meio à escuridão pôde perceber: ele era uma sombra. Uma sombra de tudo o que sonhou ser, um retrato escuro e mal pintado de um cidadão de bem, a folha amassada de um quadrinho do seu super-herói favorito. Como um retrato imundo como aquele havia chegado até ali?
Às sombras daquela velha loja não podia ser notado, muito menos ignorado como de costume. Isso o deixava feliz. Era culpado. Lembrou-se das brincadeiras de criança, dos contos e fantasias que encarnava com seus bonecos. Os atos heroicos, os desejos inocentes, o quanto se sentia feliz ao salvar a princesa daquele reino enfestado de dragões. Como aquele garoto tímido e gentil de 8 anos de idade se tornara aquele monstro? Aonde foram parar os seus sonhos? Vasculhou a lata de lixo mais próxima; não os encontrou. O cheiro do lixo embrulhou seu estomago, já estava acostumado com aquilo. O que era mesmo? A solidão? A falta de um abraço? Não. Já não sentia mais aquilo. Era culpado.
Abraçando sua barriga com força, sentou-se na calçada. Sorriu, rio, gargalhou! Sempre foi tão imbecil assim? Quantas pessoas haviam sofrido para despertar aquele riso? Quantas pessoas aquela sombra de tudo que sonhou havia magoado? Quantas vidas havia arruinado? Quantos corações despedaçado? Não importava. Estava feliz por ter deixado todos para trás. Era o seu primeiro ato de generosidade. Poderia ser o lixo de sempre longe das pessoas que amava. Era culpado.
Uma criança com olhos curiosos solta a mão da mãe e atravessa a rua em sua direção. Um carro se aproxima em alta velocidade, ele sorri de canto de boca em meio às sombras da velha loja de utilidades. Nada como a desgraça alheia para lhe fazer ganhar o dia. O carro buzina, não dá tempo de frear. A colisão não foi evitada. Uma criança tremula e assustada chora em frente a uma velha loja de utilidades em uma fria noite de outubro. Aos seus pés, um retrato escuro e mal pintado de um cidadão de bem descansa sobre uma poça de sangue. Idiota! O fim de um verme que não sabia ser ruim. Era culpado.