sábado, 23 de novembro de 2013

Remédios

Quanto tempo?
Dias?
Meses?
 Anos?
Meu escudo se fortaleceu.
Você se lembra dele?
Medo... Era como costumavam chamar naquela época.
Sempre achei isso engraçado.
Parece que você também achou graça.
Minha tolice também aumentou um pouco.
De uns tempos para cá eu descobri uma coisa.
Posso te contar?
Mas é segredo.
Não há mais tempo.
O que aconteceu de lá pra cá?
Quantos tolos você teve aos seus pés nesse “meio tempo”?
Por favor, não sorria desse jeito.
Não finja que não ouviu, não finja que não viu.
Não lembra?
Que seja! Talvez seja melhor fingir.
Mas quem é você?
O que faz aqui?
Conversávamos? Sobre?
O tempo?
Ah... O tempo.
Que tempo?
Quanto tempo?
Quanto vale o tempo?
Nosso tempo.
Talvez só.
Só meu.
Meu...
Perdido.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Run With The Wind


     Andava pela rua com seus passos largos e olhar distante, atentando-se algumas vezes ao seu relógio de pulso. Quanto tempo de sua vida já perdera? Não prestava atenção no transito, no clima, nem nas pessoas. Pouco lhe importava, também nunca recebera a devida atenção. Era culpado. Encostou-se em um muro perdendo-se na sombra de uma antiga loja de utilidades bastante popular em seu bairro. Olhando para o céu e respirando o ar frio daquela noite de outubro em meio à escuridão pôde perceber: ele era uma sombra. Uma sombra de tudo o que sonhou ser, um retrato escuro e mal pintado de um cidadão de bem, a folha amassada de um quadrinho do seu super-herói favorito. Como um retrato imundo como aquele havia chegado até ali? 
     Às sombras daquela velha loja não podia ser notado, muito menos ignorado como de costume. Isso o deixava feliz. Era culpado. Lembrou-se das brincadeiras de criança, dos contos e fantasias que encarnava com seus bonecos. Os atos heroicos, os desejos inocentes, o quanto se sentia feliz ao salvar a princesa daquele reino enfestado de dragões. Como aquele garoto tímido e gentil de 8 anos de idade se tornara aquele monstro? Aonde foram parar os seus sonhos? Vasculhou a lata de lixo mais próxima; não os encontrou. O cheiro do lixo embrulhou seu estomago, já estava acostumado com aquilo. O que era mesmo? A solidão? A falta de um abraço? Não. Já não sentia mais aquilo. Era culpado. 
     Abraçando sua barriga com força, sentou-se  na calçada. Sorriu, rio, gargalhou! Sempre foi tão imbecil assim? Quantas pessoas haviam sofrido para despertar aquele riso? Quantas pessoas aquela sombra de tudo que sonhou havia magoado? Quantas vidas havia arruinado? Quantos corações despedaçado? Não importava. Estava feliz por ter deixado todos para trás. Era o seu primeiro ato de generosidade. Poderia ser o lixo de sempre longe das pessoas que amava. Era culpado. 
     Uma criança com olhos curiosos solta a mão da mãe e atravessa a rua em sua direção. Um carro se aproxima em alta velocidade, ele sorri de canto de boca em meio às sombras da velha loja de utilidades. Nada como a desgraça alheia para lhe fazer ganhar o dia. O carro buzina, não dá tempo de frear. A colisão não foi evitada. Uma criança tremula e assustada chora em frente a uma velha loja de utilidades em uma fria noite de outubro. Aos seus pés, um retrato escuro e mal pintado de um cidadão de bem descansa sobre uma poça de sangue. Idiota! O fim de um verme que não sabia ser ruim. Era culpado.

domingo, 6 de outubro de 2013

Genu

Já não sabia como prosseguir
com tantas mágoas e feridas
As lágrimas que percorriam sua pele morena
e castigada já não faziam sentido
Genu amava fácil e sofria fácil
Sorria fácil, mas era fácil de se magoar
Genu permeava todos os sentimentos com uma espantosa facilidade
Nunca vivera o que pensara, nunca tivera o sonhara
Nunca recebera carinho nem ouvira palavras de conforto até aquele dia.
A pobre moça nunca aprendeu a esquecer.
Vivia afogada num velho poço de saudade,
pois o nome da moça era Ingenuidade.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Posso te chamar de Celeste?

Estava lá tão Sol e sem luar.
De repente você passa por mim, outra estrela decadente.
Por favor, não reflita a gravidade dos meus atos. 
Permita que eu, cometa, outro eclipse para te consolar.
Mesmo quando minguantes nos aninhamos fazendo-nos crescentes
Mesmo cheios de incertezas nos notamos novos um ao olhar do outro
Hoje podemos sentar em nossas orbitas celestes atentos a nós mesmos
Ouviu isso? É a cadência de um velho conto de fadas
Uma vez me disseram que as fadas não dormem
Disseram que elas passam a vida escrevendo histórias 
Os contos mais lindos que se possa imaginar
E que só descansam quando o seus contos se realizam
E só então podem se apagar num adeus
Num final feliz
Naquele "viveram felizes para sempre"
Bobagem, né? Não me julgue. Foi o que me contaram.
Só não quero me apagar
Eu sou Sol, você luar.
Posso ser luar se você se sentir Sol.
Somos dois "Sóis" e não nos apagamos pois nos apegamos.

[...] love doesn't last [...]

"I'd rather be alone than crying tonight
I'd rather be alone than make you cry
'Cause love doesn't last".

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Hipnos

Há dias venho tentando
desviar do teu olhar.
Tão puro e inocente
mergulho profundamente
na escuridão dos teus olhos.
Esqueço todos e tudo
já sem razão pra acordar.
Me entrego aos delírios anódinos
livre de inquietações.
Saiba, meu instintos sentem
que nos negros olhos que mentem
eu talvez possa voar.
Vadio no seu vazio
tento alcançar o Sol.
Pobre Sol que não se apega apaga
seria muito tentar?
Mas sempre perco minhas "asas"
derretidas como sonhos.
As asas de um iludido
que enfadou-se de almejar.
E sempre me arrebento
num chão frio e salgado.
Perdão por eu ter chorado
mas é brusco o despertar.
Por isso, há dias eu tento
desviar do teu olhar.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Egéria Fétida

Sempre sonhei em escrever coisas belas,
mas só você  permeia minhas ideias.
E se tem uma coisa que não combina com você, meu bem, é a tua beleza.
Lembra? Nunca fui bom com as palavras.
Mas teu nome só me faz pensar nas mais sujas pertencentes ao meu vocabulário. 
Não a sujeira bonita e doce de um garoto 
que se lambuza ao comer uma maçã do amor 
na sua primeira ida ao parque de diversões.
Mas aquela sujeira que eu costumava arrastar para debaixo do tapete 
por volta dos meus nove anos de idade, 
pois não queria decepcionar meus pais.
Pensando bem, aquela sujeira ainda é muito inocente se comparada à podridão
do que sinto e penso quando o som do teu nome
alcança meus ouvidos já exaustos.
Portanto, se me perguntarem por que não escrevo, é isso que os direi:
Não quero transformar chorume em palavras,
nem palavras em lágrimas.
Vocês me entendem?
É que sempre sonhei em escrever coisas belas.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Há de ser


Tirei os óculos para enxergar todos os detalhes daquela perfeição. Fitei-a pelo que me pareceram alguns segundos, numa tentativa talvez frustrada de enxergar sua alma tão pura. Alguns que analisavam a cena à distancia disseram terem se passado horas, mas para mim continuam sendo alguns segundos que poderiam durar uma eternidade. 
Uma eternidade de segundos seguindo seus olhos com medo de me perder. 
Ao recolocar os óculos, lá estava ela. Eu nunca tinha a visto tão envergonhada.
Afinal, o que se passara naquela eternidade de segundos? 
Será que nossos olhos de fato se encontraram? 
Será que nossas almas de fato se beijaram? 
Será? 
Há de ser.




sexta-feira, 12 de julho de 2013

Prólogo


Caminho por entre ruas e entro em vielas, buscando esconder-me de sua luz. A escuridão é minha melhor amiga. Ou seria minha maior inimiga? O amor que corre em minhas veias é forte, tão forte que não consigo vencê-lo, e consequentemente não consigo controlar o meu corpo. Há anos atrás eu não tentava fugir disso. Aliás, há anos atrás não, há séculos atrás.

Quando descobri que não poderia viver sem ela, foi um grande choque. Mesmo assim busquei encontra-la, Não! Busquei tê-la junto a mim. Doce ilusão. Do jeito que ela fitava-me, aparentando tanta solidão. O jeito que me iluminava nas noites mais confusas deram-me falsas esperanças.  Séculos depois foi que eu percebi como ela havia mudado, como elas estava mais radiante. Mas como?! Por que, se eu a negava meu amor a todo instante?! Logo voltamos ao começo, a parte em que “tento fugir do amor que sinto”. Tolice! Mas eu tenho os meus motivos, a sociedade me recriminaria se eu insistisse nesse amor. Vocês não acreditariam se eu os contasse o real motivo, diriam: “Corram! Tragam uma camisa de força, exilem esse louco!” Por isso contar-lhes-ei apenas uma pequena, mas importante, parcelo desse tal motivo.

O rei sol! O grande astro de todas as histórias! Afinal, como haveria uma final feliz se vivêssemos em uma escuridão eterna? Mas mesmo assim eu o odeio. Tu deves estar se perguntando: “O que tem o sol a ver com os delírios desse pobre homem?” Tudo! Exatamente ele é a razão para eu não querer mais viver. Digamos que o “grande rei” roubou todo o amor que ela sentia por mim. Eu não a recrimino, pois sem o sol ela nem ao menos seria vista ou notada; sem o sol eu não a teria conhecido. Ah! Cansei de enrolações! Irei contar-lhes toda a verdade desde o começo, e existe começo melhor do que o nosso nascimento?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Em um Subúrbio Qualquer


      Acordou de supetão, como quem acaba de se salvar de um afogamento. Olhando para o velho relógio torto na parede pôde perceber que ainda era madrugada, uma madrugada qualquer, como todas as outras em que passara ao lado dela. Sentiu um gosto de sangue, como em todas as vezes que se lembrava dela. Olhou ao redor tentando não se lembrar do que havia sonhado, mas era impossível. Quanto tempo já se passara desde que ela partiu para “protegê-lo”? Das coisas que ela disse, não conseguia esquecer uma palavra sequer. “Você é incrível, eu te amo. Quero passar a minha vida inteira ao seu lado”. E quanto às promessas que ela havia feito? A viagem pela América Latina que tinham combinado de fazer juntos. Olhou para o calendário e percebeu que aquele dia era o dia em que a partiriam em viagem, 01 de maio, nunca esqueceria aquela data tão importante.

      Sentiu um calafrio e com dificuldade para respirar foi até o espelho do banheiro. Já não era a mesma pessoa, as olheiras de todas as noites mal dormidas eram facilmente notadas, a barba já tomara proporções exageradas, seus cabelos estavam mais longos do que o de costume. “Eu gosto do seu cabelo do jeito que ele é, não ligue para o que os outros dizem”. Num ato de libertação cortou seu cabelo de uma maneira trêmula e desajeitada. À medida que as mechas cobriam a pia, as lágrimas cobriam seu rosto. Deitou no chão do banheiro, o cheiro das lágrimas agora se misturava a um cheiro insuportável de merda; provavelmente era o cheiro do ralo ou de qualquer outra coisa. Na verdade, aquele apartamento inteiro fedia a merda, a sua vida fedia a merda.

      Levantou-se ofegante e decidiu que era hora de voltar para a cama, caminhou até a janela para respirar um pouco de ar puro. Como era bom se sentir vivo por alguns instantes! A visão não era das melhores, um beco onde só se viam gatos revirando os sacos de lixo, e uma praça deserta aonde só se viam alguns casais de jovens que aproveitavam o pouco movimento do local para cometer suas promiscuidades. Olhando bem para a praça, pôde ver apenas um casal que parecia não estar familiarizado com o local. A garota estava de costas, o máximo que pôde ver foram seus longos cabelos cacheados, e o rapaz usava um rabo de cavalo estilo anos 80 que lhe lembrava muito o que cultivara por tanto tempo. Era incrível como o jovem se parecia com ele, no seu jeito de falar, de balançar as mãos desajeitadamente, a maneira que mexia descontroladamente nos cabelos aparentando nervosismo. A moça abraçou o rapaz e o beijou de uma forma tão doce e verdadeira. Eles sim pareciam estar felizes, aquele sim era um amor que aparentava ser realmente eterno. Os dois deram as mãos e começaram a caminhar em direção ao velho conjunto de apartamentos. Quando o casal alcançou a luz do único poste que iluminava a velha viela, ele apertou os olhos que já não enxergavam tão bem e pôde ver com todos os detalhes o rosto da linda moça. Era ela! Acordou de supetão, como quem acaba de se salvar de um afogamento. Olhando para o velho relógio torto na parede pôde perceber que ainda era madrugada.