Acordou de supetão, como quem acaba de se salvar de um afogamento. Olhando para o velho relógio torto na parede pôde perceber que ainda era madrugada, uma madrugada qualquer, como todas as outras em que passara ao lado dela. Sentiu um gosto de sangue, como em todas as vezes que se lembrava dela. Olhou ao redor tentando não se lembrar do que havia sonhado, mas era impossível. Quanto tempo já se passara desde que ela partiu para “protegê-lo”? Das coisas que ela disse, não conseguia esquecer uma palavra sequer. “Você é incrível, eu te amo. Quero passar a minha vida inteira ao seu lado”. E quanto às promessas que ela havia feito? A viagem pela América Latina que tinham combinado de fazer juntos. Olhou para o calendário e percebeu que aquele dia era o dia em que a partiriam em viagem, 01 de maio, nunca esqueceria aquela data tão importante.
Sentiu um calafrio e com dificuldade para respirar foi até o espelho do banheiro. Já não era a mesma pessoa, as olheiras de todas as noites mal dormidas eram facilmente notadas, a barba já tomara proporções exageradas, seus cabelos estavam mais longos do que o de costume. “Eu gosto do seu cabelo do jeito que ele é, não ligue para o que os outros dizem”. Num ato de libertação cortou seu cabelo de uma maneira trêmula e desajeitada. À medida que as mechas cobriam a pia, as lágrimas cobriam seu rosto. Deitou no chão do banheiro, o cheiro das lágrimas agora se misturava a um cheiro insuportável de merda; provavelmente era o cheiro do ralo ou de qualquer outra coisa. Na verdade, aquele apartamento inteiro fedia a merda, a sua vida fedia a merda.
Levantou-se ofegante e decidiu que era hora de voltar para a cama, caminhou até a janela para respirar um pouco de ar puro. Como era bom se sentir vivo por alguns instantes! A visão não era das melhores, um beco onde só se viam gatos revirando os sacos de lixo, e uma praça deserta aonde só se viam alguns casais de jovens que aproveitavam o pouco movimento do local para cometer suas promiscuidades. Olhando bem para a praça, pôde ver apenas um casal que parecia não estar familiarizado com o local. A garota estava de costas, o máximo que pôde ver foram seus longos cabelos cacheados, e o rapaz usava um rabo de cavalo estilo anos 80 que lhe lembrava muito o que cultivara por tanto tempo. Era incrível como o jovem se parecia com ele, no seu jeito de falar, de balançar as mãos desajeitadamente, a maneira que mexia descontroladamente nos cabelos aparentando nervosismo. A moça abraçou o rapaz e o beijou de uma forma tão doce e verdadeira. Eles sim pareciam estar felizes, aquele sim era um amor que aparentava ser realmente eterno. Os dois deram as mãos e começaram a caminhar em direção ao velho conjunto de apartamentos. Quando o casal alcançou a luz do único poste que iluminava a velha viela, ele apertou os olhos que já não enxergavam tão bem e pôde ver com todos os detalhes o rosto da linda moça. Era ela! Acordou de supetão, como quem acaba de se salvar de um afogamento. Olhando para o velho relógio torto na parede pôde perceber que ainda era madrugada.
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